Política

Recado das urnas: voto em branco e nulo vai crescer nas eleições

Para o cientista político da PUC-Rio Ricardo Ismael, há desesperança generalizada com os políticos, o que faz com que o eleitor não consiga “separar o joio do trigo”.

Nas maiores capitais brasileiras, a participação de eleitores que pretendem votar em branco ou nulo cresceu, em relação a 2012,

Fonte: O Globo

Desconfiança na política turbina índice de voto em branco e nulo

Número cresce nas maiores capitais e pula de 10% para 19% no Rio

RIO – Nas maiores capitais brasileiras, a participação de eleitores que pretendem votar em branco ou nulo cresceu, em relação a 2012, nas semanas que antecedem a eleição municipal, de acordo com o cruzamento de pesquisas realizadas pelo Ibope. No Rio, onde essa variação foi mais intensa, os votos em branco e nulos estão em segundo lugar na disputa pela prefeitura, atrás do candidato Marcelo Crivella (PRB). Para cientistas políticos ouvidos pelo GLOBO, o aumento é explicado pela desconfiança generalizada do eleitorado com a política, em um contexto de crise e escândalos de corrupção.

Se em setembro de 2012, antes do Rio reeleger Eduardo Paes (PMDB), o percentual de brancos e nulos entre os entrevistados pelo Ibope somava 10%, hoje, chega a 19%. Em São Paulo, a participação de votos em branco e nulos passou de 10% para 13% e, em Belo Horizonte, de 8% para 14%. Porto Alegre, Recife e Fortaleza também apresentaram altas dessas intenções de voto. Na contramão, Salvador teve queda, de 15% para 8%. A capital baiana tem hoje o principal candidato, ACM Neto (DEM), que concorre à reeleição com alta popularidade. Seu percentual de intenções de voto chega a 70%.

A diretora executiva do Ibope Márcia Cavallari prevê que o índice de votos em branco e nulos será maior em 2016, puxado pelo contexto político nacional:

— Há no voto branco ou nulo uma forma de protesto. Esse eleitor decide não consegue ver saídas entre as opções. O processo que passamos com a classe política que justifica isso.

Para o cientista político da PUC-Rio Ricardo Ismael, há desesperança generalizada com os políticos, o que faz com que o eleitor não consiga “separar o joio do trigo”. Além da descrença, o tempo curto de campanha interfere na decisão. Na sua avaliação, a Olimpíada, o impeachment de Dilma Rousseff e a cassação do mandato de Eduardo Cunha tiraram o foco do debate municipal. O pesquisador também acredita que o número de votos em branco ou nulo será maior que os registrados em 2012 e 2014, mas deve apresentar uma leve queda até 2 de outubro.

— É evidente que essa eleição é diferente. Acho que tem uma parte que não vai votar mesmo, e quer mostrar que não gosta da política, mas tem outra parte que tem chance decidir pela candidatura que não seria ideal, mas a menos pior, ou que se aproxima mais do que deseja. Vai ter pragmatismo também — analisa.

A professora Alessandra Aldé, da Uerj, destaca que os eleitores que decidem votar em branco ou nulo se consideram mais informados e acreditam que têm um voto de qualidade. A pesquisadora afirma, no entanto, que há um efeito negativo do voto em branco ou nulo especialmente na escolha de vereadores e demais representantes do legislativo, cargos em que há voto proporcional.

— Com o voto branco ou nulo, outras pessoas se elegerão e isso contribui para desqualificar a representação. Cada voto vai fazer diferença — afirma Aldé.

O pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa Júlio Aurélio, por sua vez, acredita que a maior parte desse eleitorado já está consolidada, mas ainda é possível que decida escolher um candidato. Ele aponta para a tendência de alta nas regiões do país com maior densidade demográfica e, principalmente, nas cidades onde os protestos de junho de 2013 foram maiores. Para o cientista político, o voto em branco ou nulo é a principal manifestação do descontentamento com a baixa qualidade dos serviços públicos, uma das bandeiras levantadas pelo movimento que tomou as ruas há três anos:

— É a primeira eleição municipal após os protestos e o tema do direito à cidade está ausente. A sombra de 2013 está sobre a eleição. De um lado, todos os candidatos falam da qualidade dos serviços públicos, mas, do outro, não avançam no que deveriam, apresentam propostas genéricas, não apontam para a responsabilização dos gestores em relação aos serviços prestados, nem medidas práticas para garantir a qualidade.

Júlio Aurélio ressalta ainda o impacto da dimensão nacional sobre o pleito local. Para ele, há desconfiança dos eleitores em relação aos políticos associada à falta de alternativas que efetivamente combatam a corrupção:

— A democracia precisa de confiança.

O GLOBO procurou os candidatos a prefeito do Rio para saber como pretendem recuperar parte desse eleitorado. Crivella sugeriu que “as lideranças cuidem mais das pessoas e tenham mais sensibilidade para ouvir a população”. Alessandro Molon (Rede) diz que a saída é mostrar que o efeito de não escolher um candidato será pior. Indio da Costa (PSD) afirmou que investe na “conversa sincera com o eleitor para mostrar que só ele pode mudar a maneira como faz política”. Marcelo Freixo (PSOL) acredita que tem grande vantagem por ser o candidato de menor rejeição. Jandira Feghali (PCdoB) afirmou que pode quebrar o preconceito com os políticos ao mostrar sua história e seu perfil de compromissos. Osorio (PSDB)destaca que é o “único que não tem perfil de político tradicional” e que se apresenta como uma nome para fazer “renovação”. Já o candidato do PMDB, Pedro Paulo, atribuiu o aumento do percentual de voto em branco e nulos ao fato de a eleição estar fria, disputando atenção com Olimpíada e fatos políticos nacionais.

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