Política

Itamar Franco: Verdades e mitos de um político à moda antiga, escreve o Valor em editorial

Verdades e mitos de um político à moda antiga

Fonte: Valor Econômico

Editorial
Muito já foi dito sobre o senador Itamar Franco, o 24º presidente da República, morto no sábado passado, aos 81 anos de idade. Muito mais ainda será falado, e ainda será pouco na medida do exemplo de homem público a ser recuperado pela classe política brasileira.

Honrado, Itamar sobreviveu ao impeachment do governo do atual senador Fernando Collor e governou o país de dezembro de 1992 a janeiro de 1995.

Perspicaz, o ex-presidente não deixou passar momento político favorável proporcionado pela aliança dos partidos que tiraram Collor para atacar o mal maior do país, naqueles tempos – a inflação elevada que corroía os rendimentos das camadas mais pobres da população e só fazia aumentar ainda mais a imensa dívida social brasileira.

Patriota, Itamar fez uma única exigência aos encarregados de formular o Plano Real: ele não admitia moeda estrangeira circulando no país nem a abertura de contas em dólar. Na época, era moda a dolarização da economia nos planos de estabilização, a exemplo do que fez então a Argentina, com os resultados negativos que todos conhecemos bem.

Essa é uma passagem pouco conhecida da história do Plano Real. Fala-se muito que Itamar queria o congelamento de preços, o que é verdade, mas é fato que ele logo se convenceu de que tabelar os preços era meio caminho andado para o fracasso do plano, como ocorrera com as tentativas anteriores para domar a inflação.

Turrão, Itamar bateu mesmo o pé foi na questão da moeda. Era mais que patriotismo ou nacionalismo, mas o entendimento perfeito e acabado de que a moeda representava a identidade do país, não importa o nome, contos de réis, cruzeiro, cruzado ou real.

Itamar Augusto Cautiero Franco morreu com mágoas de Fernando Henrique Cardoso, o ministro da Fazenda ao qual encarregou a confecção do plano para combater a inflação. O motivo seria a falta de reconhecimento de FHC do papel do presidente da República para o sucesso do real. É possível, e FHC já reconheceu os méritos de Itamar no livro “A Arte da Política – A História que Vivi”, lançado em 2006.

Político à moda antiga, Itamar Franco foi prefeito de Juiz de Fora (MG) e senador em três oportunidades, era um homem de hábitos simples, visto por muitos como um político ultrapassado na chefia de uma certa “República do Pão de Queijo”, numa evidente tentativa de desmoralizá-lo naquilo em que era irredutível: a boa conduta no cargo público.

Traço marcante de Itamar Franco era sua absoluta intransigência com a corrupção. Tornou-se comum, em seu governo, os ministros chegarem ao trabalho e encontrarem um recado do Palácio do Planalto dizendo que o presidente exigia explicações sobre notícias publicadas nos jornais do dia sobre algum desvio ético no governo.

Nesse aspecto, merece ser relembrada a atitude do presidente quando pairaram dúvidas sobre a ética de seu principal ministro, o então chefe da Casa Civil, Henrique Hargreaves. O ministro não era apenas amigo de Itamar, os dois eram como irmãos. Nada disso impediu o presidente de afastar o auxiliar até que uma sindicância inocentou Hargreaves da suspeita de estar associado à prática de corrupção e o ministro foi reintegrado ao cargo.

Já se disse que Itamar combatia a corrupção por princípio. Esse sem dúvida é o exemplo a ser seguido, sobretudo nestes tempos em que há a suspeita de que o PR montou um esquema nada republicano no Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). A presidente Dilma Rousseff agiu rápido ao mandar afastar os principais implicados na denúncia, mas não deve se intimidar diante de ameaças de retaliação política.

Quando chegou à Presidência para suceder Collor, Itamar Franco também montou um governo com os partidos que defenestraram o hoje senador por Alagoas. Todos eles ajudaram a apear Collor do poder, portanto tinham responsabilidade com o governo do vice. No entanto, a tomada do poder pela classe política não foi seguida pelo voraz aparelhamento partidário do Estado, na maioria das vezes a origem do verdadeiro assalto ao dinheiro público que nos últimos anos tomou conta das páginas políticas dos jor

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