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Geração nem-nem deve empurrar desemprego

Mulheres e jovens “nem-nem” – aqueles que não estudam nem trabalham – aparecem entre os grupos cuja participação no mercado de trabalho caiu.

Economia sem rumo

Fonte: Valor Econômico

Geração nem-nem deve empurrar desemprego
Governo do PT: taxa de desemprego aumenta consideravelmente.
Foto: Divulgação.

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O aumento da taxa de desemprego previsto desde o ano passado pelo mercado tem contornado as expectativas e deve chegar com quase um ano de “atraso”. Para Sonia Rocha, pesquisadora do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS), mais do que os sinais visíveis de esgotamento do mercado de trabalho, já é possível enxergar quais segmentos da população deverão pressionar o indicador nos próximos meses.

No estudo “Demografia e Mercado de Trabalho: o que Explica o Declínio da Desocupação no Brasil?”, as mulheres e os jovens “nem-nem” – aqueles que não estudam nem trabalham – aparecem entre os grupos cuja participação no mercado de trabalho caiu de maneira mais significativa entre 2005 e 2012. Quando a desaceleração do aumento da renda comprometer o pagamento das despesas das famílias, diz, eles serão os primeiros a voltar em busca de uma vaga.

Segundo Sonia, o “fôlego do setor de serviços” surpreendeu boa parte dos especialistas e ajudou a manter a taxa de desemprego próxima de 5% entre 2013 e 2014. O comportamento favorável do rendimento do trabalho, que continuou subindo em um mercado aquecido, com demanda por mão de obra no ramo de serviços, permitiu adiar esse aumento previsto da desocupação. Essa é, entretanto, uma sobrevida “insustentável”, diz a pesquisadora, e que já mostra sinais de esgotamento.

No estudo, a economista coloca o declínio da taxa de participação – a relação entre as pessoas em idade de trabalhar e aquelas que estão no mercado de trabalho, empregadas ou em busca de uma vaga – como um dos principais responsáveis pelo processo de redução contínua do desemprego no Brasil desde 2004. Entre 2005 e 2012, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), a taxa passou de 62,8% para 59,8%. Se tivesse permanecido constante, a taxa de desemprego em 2012 teria sido de 11,2%, e não de 6,2%, como foi verificado.

Mais do que gerar novos empregos, o mercado tem assistido a uma saída constante de trabalhadores. Entre 2001 e 2005, por exemplo, a população ocupada cresceu a um ritmo forte de 2,78% ao ano. A geração de postos desse período, porém, não foi suficiente para responder à demanda, refletida no avanço anual médio do 2,8% da população economicamente ativa (PEA). A situação muda no intervalo de 2009 a 2012, com avanço da ocupação mais modesto, de 0,75% ao ano, e uma redução de 0,01% na PEA, que retirou pressão significativa da taxa desemprego.

Houve declínio da participação em praticamente todos os grupos observados. A economista destaca, contudo, o caso das mulheres, cuja inserção cresceu de maneira contínua entre 2001 e 2009, elevando a taxa de participação a 52,8%, mas perdeu força no momento seguinte, estabilizando-se em 50%.

O grupo dos jovens também perdeu participação. Para Sonia, porém, esse movimento não está ligado apenas a um maior esforço para dar continuidade aos estudos. Entre 2005 e 2012, a taxa de escolarização no Brasil aumentou ligeiramente na faixa de 15 a 17 anos, de 82% para 84%, mas declinou na parcela de 18 a 24, passando de 32% para 29%. Ao lado da queda simultânea da taxa de atividade, afirma a pesquisadora, esse indicador explicita o aumento do contingente dos “nem-nem”.

A renda do trabalho é o “determinante-chave” para a construção desse cenário. O aumento de 38% em termos reais na renda domiciliar per capita entre 2005 a 2012 permitiu, por um lado, que os jovens não tivessem de trabalhar para ajudar a pagar as despesas domésticas e que, de outro, algumas mulheres pudessem, por exemplo, dedicar-se apenas à família – nesse sentido, a deficiência na oferta de creches e pré-escolas públicas pode ter tido um peso importante na decisão.

Sendo assim, no momento em que a renda desacelera e não é mais suficiente para sustentar toda a família, esses grupos serão os primeiros a voltar ao mercado de trabalho e, por consequência, a pressionar a taxa de desocupação, afirma Sonia. Em sua avaliação, não há medidas de curto prazo que promovam uma colocação rápida desses grupos no mercado e suavizem o aumento – que já não é intenso – esperado na taxa de desemprego.

“As medidas de efeito rápido para a criação de vagas significam geralmente menor proteção ao trabalhador e só devem ser utilizadas em momentos de crise aguda”, afirma. A reversão das expectativas – e do pessimismo – dos agentes econômicos, por sua vez, afetaria de maneira favorável o mercado de trabalho como um todo, avalia, gerando otimismo que permitiria a retomada do investimento. “Mas não vejo no curto prazo mais que efeito psicológico.”

O que se coloca, na avaliação de Sonia, é um trabalho difícil e de longo prazo de melhoria do ambiente de negócios, que depende de ganhos de eficiência da máquina pública, da maturação de investimentos em educação e infraestrutura, além de reformas trabalhistas e tributárias. “Começar a fazer tudo isso, que já deveríamos estar fazendo há décadas – o caso do nosso desastre educacional é exemplar – já seria progresso”.

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